A república promete escolher pessoas, enquanto a monarquia escolhe linhagens. Mas quando o desgaste se acumula, a república procura atalhos e volta a coroar — por via mediática e eleitoral — figuras providenciais. O voto substitui a hereditariedade, não elimina a inclinação de alguns pela devoção irracional.
No Japão, a primeira mulher primeiro-ministro, ou seja, a primeira-ministra Sanae Takaichi, chegou ao cargo após um escândalo de financiamento no partido dominante e enfrenta eleições legislativas com sondagens a apontar para vitória ampla. A mobilização é fortemente personalista e digital, com culto em torno da líder que mistura símbolos de consumo e estilo (marketing) com promessas (realistas?) fiscais de alívio no custo de vida, e política externa movida a Washington versus Pequim.
A novidade biográfica no feminino não imuniza contra o velho risco institucional: quando a política se converte em fandom (neologismo: comunidade de admiradores mobilizados em torno de uma figura digital de redes sociais; antigos e imortais termos: séquito, corte, claque, culto da personalidade), a república aproxima-se da monarquia. Quanto mais providencial parece a pessoa, mais indispensáveis se tornam os travões impessoais — escrutínio, contas públicas, contrapesos. Caso contrário, a república não vence a monarquia: imita-a. Claro que, no Japão, acima da primeira-ministra ainda há o imperador hereditário.
Luis Miguel Novais
