Em 26 de Abril de 2017, o Deputy Secretary of Defense dos EUA — o número dois do Pentágono — assinou um memorando com aparência administrativa: criava uma Algorithmic Warfare Cross-Functional Team, conhecida como Project Maven, com o objectivo de transformar o enorme volume de dados disponível no Department of Defense em intelligence accionável, “at speed”. O que então podia parecer apenas uma reorganização técnica era, afinal, outra coisa: o momento em que a guerra começou a deslocar-se da observação humana para a inferência algorítmica.
É isso que hoje se percebe melhor. A edição de hoje da The Economist recenseia o livro de Katrina Manson, Project Maven: A Marine Colonel, His Team, and the Dawn of AI Warfare, publicado em 24 de Março de 2026. O livro entra no que o memorando não dizia: as salas fechadas, a equipa inicial, o papel do coronel Drew Cukor, a resistência interna, a tensão com Silicon Valley, a saída da Google depois dos protestos dos seus trabalhadores, e a passagem de uma ferramenta de análise de vídeo para uma arquitectura militar de targeting assistido por IA.
Já não estamos num filme de James Bond. O Project Maven é mesmo oficial: o nome burocrático do dia em que a inteligência artificial começou a sentar-se à mesa da guerra. Estamos na era dos killer robots. E o Direito, que serve os Humanos, ainda vem a caminho.
Luis Miguel Novais
