Muitos anunciam-no como liberation day — again. A Europa descobre, tarde, que não há soberania política quando os nossos dados, pagamentos, comunicações, nuvens e inteligências artificiais residem sob comando jurídico e industrial do America First. E quando dados soberanos, como os de autoridades públicas neerlandesas, podem ficar expostos por via de leis americanas como o CLOUD Act, percebe-se que a soberania digital deixou de ser tema de seminário para passar a ser matéria de Estado.
A Comissão Europeia apresentou, em 3 de Junho de 2026, um pacote de soberania tecnológica para reduzir a dependência das grandes plataformas americanas em cloud, inteligência artificial e semicondutores. O Parlamento Europeu decidiu agora substituir o Google pelo Qwant como motor de busca por defeito nos seus sistemas. As novas propostas europeias apontam para exigências de soberania em sectores críticos como banca, energia e saúde, para preferência por software e hardware europeus em contratos públicos sensíveis e para reforço da capacidade europeia em chips e data centres. Até os gigantes tecnológicos americanos já respondem com ofertas “soberanas”, europeizadas, locais, como quem percebe que o tempo da inocência acabou.
Não é antiamericanismo. É política europeia. A Europa regulou o mundo digital durante anos, mas deixou que outros construíssem as máquinas, as clouds, os sistemas e os modelos. Agora percebe que a lei sem infraestrutura é uma declaração de intenções. Mieux vaut tard que jamais.
Luis Miguel Novais
