Foi necessário. Em 2012, no auge da crise, o Estado vendeu a ANA — Aeroportos de Portugal — à Vinci e concedeu, por 50 anos, a exploração da rede aeroportuária nacional. Precisava de receita, de credibilidade e de tempo. Fê-lo com uma solução simples: uma rede inteira, um operador, um contrato longo. Pacta sunt servanda.
Mas os contratos vivem no tempo. Rebus sic stantibus. O turismo tornou-se um dos principais motores da economia — cerca de 30 mil milhões de euros, mais de 25% do PIB — e a capacidade aeroportuária passou de ativo a estrangulamento. A rede foi concessionada como um todo, protegida e fechada à entrada, com incentivos para otimizar o que existe, não para abrir o que falta. Resultado: concentração, bloqueio de alternativas, ausência de concorrência. Com tanto Portugal adormecido nas regiões a pedir portas de entrada, o que falta não é território nem destino — é acesso. A porta de entrada aérea está condicionada, ao contrário de Espanha e Itália, onde os modelos não fecham o sistema, mantendo a iniciativa privada e o controlo do interesse público pelo Governo. Em tempo de crise, quando outros setores abrandam, quando o mal do Médio Oriente poderia fazer crescer o Turismo. Não pode. Não temos aeroportos que cheguem. Os que temos já estão a abarrotar.
Mais do que discutir a privatização de ontem, o governo deste Portugal adormecido deve fazer a única conta que interessa: quanto custa recuperar o controlo da ANA — e quanto custa não o fazer. Et non sic ergo. A corda que segurou o país não pode tornar-se o nó que o prende — e que nos enforca.
Luis Miguel Novais
