A leitura do testemunho de Cadamosto (mercador e navegador veneziano do século XV ao serviço do Infante D. Henrique), recuperado por Barnaby Rogerson em Os Últimos Cruzados, traz-me a estas linhas. Surpreende a naturalidade com que dois estrangeiros (um testemunha dos factos e outro nosso contemporâneo), nos devolvem a imagem de um Portugal que atraía homens de negócio, saber técnico e ambição comercial de toda a Europa. No relato surgem um secretário do Infante, amostras de açúcar da Madeira e de outros produtos, ilhas recém-descobertas, mares nunca dantes navegados e uma proposta comercial a Cadamosto. O mercador de Veneza vinha cá com navio ou sem navio, porque era aqui que se decidiam rotas, riscos e oportunidades: “Cadamosto foi levado para um canto e convidado a tornar-se mercador-aventureiro sob a bandeira do Infante, que tomaria para si um quarto de toda a carga se Cadamosto providenciasse o seu próprio navio e mercadorias transacionáveis, ou metade, se lhe emprestasse uma caravela. Felizmente, Cadamosto aceitou a proposta, não uma, mas duas vezes. Deixou-nos uma descrição dos primórdios do comércio na África Ocidental, isenta da linguagem oficial dos cronistas reais portugueses e abundando em pormenores encantadores.”
Há neste excerto qualquer coisa de revelador para o presente. Hoje habituámo-nos a pensar este Portugal adormecido na periferia, dependente, espectador. Mas houve um tempo em que éramos centro operativo do mundo conhecido e desconhecido. Não por dimensão, mas por iniciativa, organização e capacidade de convocar talento estrangeiro para projetos próprios.
O contraste é severo. O mesmo país que então abria mares nunca dantes navegados parece agora resignado a administrar rotinas. Talvez convenha recordar que a centralidade não é geografia: é energia histórica.
Luis Miguel Novais
