A inteligência artificial começou mal. Não por maldade. Por preguiça. Viu Toronho e, antes de ir às pedras, foi à prateleira dos alunos cansados, dos comentadores úteis e dos sábios de algibeira. Quase fez de Toronho uma gralha de Toronto. Felizmente, ainda há quem leia. Toronho não é exotismo. É terra. É fronteira. É Galiza de baixo, Minho de cima, Toronho, Tui, Celme, Límia, castelos, linhagens, guerra, mãe, filho, genro e resgate. Portugal não nasceu numa certidão perfumada. Nasceu a murro, ambição, ferida e perda.
Vem isto a propósito da nova Comissão para celebrar os novecentos anos da fundação de Portugal, presidida pelo inenarrável Paulo Portas, o nosso Pacheco, como diria Eça. O problema destas comemorações não é comemorar. O problema é branquear. Fazer de São Mamede uma catequese escolar, de Ourique uma gravura, de Zamora uma ata notarial e do nascimento de Portugal uma procissão sem sangue. Antes disso já havia D. Teresa. Filha de Afonso VI, viúva do conde Henrique, senhora de Toronho, rainha de Portugal antes de Portugal se confessar reino. Desde 1114, pelo menos, já cheira a coroa. Já há rainha, logo reino? Contas feitas, não são novecentos anos. São uns bons novecentos e doze já completos.
Claro que isto atrapalha a história lavada. Porque D. Teresa não cabe bem no postal. Queria Portugal, digo eu, não como quintal obediente da Galiza da irmã, mas como poder próprio. O filho Afonso Henriques prosseguiu-lhe a ambição até se desentenderem. Depois venceu-a. Depois foi rei. Depois perdeu Toronho e Límia em Badajoz, refém do genro, pagando com fronteira a liberdade do corpo. Para quem não gosta de ler, há sempre remédio. Vá ver pedras. As pedras do castelo de Toronho não fazem comentários de domingo, não dão entrevistas, não têm avença, não presidem a comissões e não precisam de guião patriótico. Estão lá. Caladas. Arruinadas. Suficientes. Dizem melhor do que muitos discursos que Portugal também nasceu do que quis ser e não pôde. Há mais de 900 anos.
Luis Miguel Novais
