Hoje, em Washington (e, por conseguinte, em Pequim), a palavra do dia é Mythos. Também não por acaso The Economist faz capa hoje com o “Mythos moment”: o instante em que a inteligência artificial deixa de ser apenas promessa tecnológica e passa a ser mais uma questão de poder e Estado.
Percebe-se porquê. A Anthropic acaba de lançar o Claude Mythos Preview no quadro do Project Glasswing (um “aquário” controlado onde testa os seus peixinhos informáticos canibais) para detetar e corrigir vulnerabilidades em software crítico de toda a gente, desde infraestrutura até sistema financeiro, you name it; já se aponta para uma oportunidade potencial da ordem dos 2 milhões de milhões de dólares (não é engano) para este mercado de “fornecedores de cibersegurança”. Não é, portanto, apenas um salto técnico. É também um grande negócio.
Este é, no fundo, mais um momento Echelon: mais uma passagem do ilusório governo das máquinas para a mão dos humanos que mandam nas máquinas. E é aí que começa o verdadeiro problema: não basta alinhar modelos em caixas negras, nem adicionar regulação, nem confiar em prudências comerciais (parece que desta vez está a correr bem, da próxima vez não sabemos). Falta uma instância lógica superior neutra, colocada acima da semântica operacional da máquina: aquilo a que, há meses, chamo ontological firewall.
Luis Miguel Novais
