Em A Janela do Cardeal, o protagonista contempla Vénus e nomeia-a “certeza da constância do devir”. O astro da manhã atravessa línguas, traduções e leituras bíblicas. Ao reler Daniel Boorstin em Os Pensadores, reaparece sob outra forma antiga: Isaías 14:12, citado na tradição latina e anglo-saxónica como a queda de “Lúcifer”.
O hebraico bíblico lê o equivalente a “astro brilhante, filho da aurora”. No contexto do profeta Isaías, trata-se de uma sátira ao rei da Babilónia, metáfora política da ascensão e queda. A Vulgata verteu para lucifer, termo latino que designava o astro da manhã. A partir daí, a tradição cristã construiu uma leitura teológica que identificou com a quotidiana queda do anjo rebelde.
As traduções modernas da Bíblia, normalmente desde o virar do segundo milénio, curiosamente eliminam lucifer e regressam ao texto hebraico, preferindo “estrela da manhã” ou “astro da alva”. Entre Vénus e “Lúcifer” medeia afinal a história da tradução bíblica. O astro permanece; a Bíblia também, mas as palavras deslocam-se: “certeza da constância do devir”.
Luis Miguel Novais
