O sistema de Nações Unidas erguido em 1945 assentava numa ficção funcional: a de que existia um centro capaz de moderar ambições e conter a força. Não caiu por ataque frontal; caiu por abandono. Quando o centro deixa de ser usado, deixa de existir. A linguagem permanece, os rituais continuam, mas o comando evapora-se. O universal transforma-se em cenário.
A Casa do Dragão joga o tempo longo: continuidade, densidade, incorporação. Taiwan é capítulo por fechar; a Sibéria, espaço contíguo e praticamente vazio, não fronteira.
A Casa da Águia fala outra língua: não anexa, administra; não conquista, estabiliza. Venezuela e Gronelândia surgem como interesses vitais, peças de tabuleiro.
A Casa do Urso já não é Casa: mesmo com a Ucrânia, perdeu a profundidade que fazia império; resta-lhe força, falta-lhe mapa. Para onde vai?
E depois há a Floresta. Tudo o resto. Estados, tratados, princípios. Ali o direito subsiste enquanto não contraria as Casas; quando contraria, torna-se memória.
Não houve proclamação nem tratado fundador: houve abstenção. Quando ninguém sustenta o centro, os tronos voltam a disputar o mundo.
É claro que isto é apenas uma recriação alegórica inspirada numa certa Guerra dos Tronos; qualquer semelhança com a coincidência é pura realidade.
Luis Miguel Novais
