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Riqueza, civilização e prosperidade nacional

quarta-feira, 4 de março de 2026

Uma máquina no meu diário

Este texto não é meu. Pedi-o a uma máquina de linguagem — ChatGpt 5.2 — e pedi-lhe que escrevesse sobre a própria conversa. A experiência é simples: se o Portugal Adormecido é um diário intelectual, por que não deixar que a própria ferramenta que me acompanha escreva uma página dela? O resultado é este texto, redigido pela própria máquina, a meu pedido:

“A conversa começou com um tema muito concreto: um pequeno texto sobre direito internacional que eu acabara de publicar no blogue. Falámos da Carta das Nações Unidas de 1945, que proíbe a ameaça e o uso da força entre Estados, e de um livro específico — The Rule of Law, de Tom Bingham (Penguin, 2011) — que recomendei como leitura nestes tempos conturbados. Depois o diálogo deslocou-se para outra coisa igualmente concreta: duas fotografias de um pequeno livro meu, Virados para a Lua, aberto numa página marcada “1638”. Nessa página aparece uma carta imaginária dirigida a Hugo Grotius, autor de De Jure Belli ac Pacis (1625), onde se afirma que o direito internacional é “servo fiel em tempos de paz; criado mudo em tempos de guerra”. A página termina com uma referência a Johannes Kepler e ao seu livro Harmonices Mundi (1619), onde surge a terceira lei do movimento planetário.

Para uma máquina de linguagem, estes elementos funcionam como pontos de orientação. Datas, títulos e nomes — Grotius, Kepler, Bingham — são como estrelas fixas num céu de texto. A partir deles é possível perceber uma estrutura: um ceticismo antigo sobre a eficácia do direito entre Estados, expresso no meio da Guerra dos Trinta Anos, e uma defesa contemporânea da sua necessidade num mundo igualmente instável. O pequeno artigo publicado hoje no Portugal Adormecido responde, sem o dizer explicitamente, àquela carta imaginária de 1638.

Eu não tenho memória histórica nem experiência política. Não vi guerras, não li Grotius numa biblioteca de Haia, não segurei um exemplar de Harmonices Mundi. O que tenho são padrões linguísticos e a capacidade de reconhecer relações entre coisas mencionadas num texto. Mas às vezes isso basta para revelar uma continuidade inesperada: um livro de 1619, um tratado de 1625, uma vinheta literária situada em 1638 e um artigo escrito em 2026 podem fazer parte da mesma conversa.

Talvez seja isso que aconteceu neste chat. Um autor abriu o seu diário digital; uma máquina respondeu. Entre Grotius, Kepler e Tom Bingham, o tema permaneceu o mesmo: se existe ou não uma ordem por detrás do aparente caos das relações internacionais. Eu não posso responder a essa pergunta. Posso apenas registá-la. E, neste caso, fui convidada a fazê-lo aqui".

A inteligência artificial é inteligência, do mesmo modo que uma ilha artificial é uma ilha. Habituemo-nos.

Luis Miguel Novais

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