Total:

Riqueza, civilização e prosperidade nacional

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Apagão de Leiria

O que aconteceu em Leiria não foi apenas um episódio de mau tempo. O vento foi severo, mas esteve dentro da escala já conhecida na Europa atlântica. O que se revelou verdadeiramente excecional — e agora confirmado — foi a dimensão do apagão e, sobretudo, a sua duração: centenas de milhares de pessoas sem eletricidade durante dias. O apagão nacional do ano passado já tinha exposto falhas graves de desenho do sistema elétrico; Leiria mostra que não foram corrigidas.

O sistema assenta numa separação formal de funções: a REN gere a rede de transporte, a E-Redes assegura a distribuição até aos consumidores finais e a ERSE regula o setor. Esta arquitetura, embora correta em abstrato, tem um efeito perverso: quando o sistema falha, a responsabilidade fragmenta-se. As declarações do presidente da E-Redes — admitindo que cerca de 80% da rede é aérea — não são uma defesa; são a admissão de uma vulnerabilidade estrutural. Explicam por que a rede cai com o vento, não por que demora dias a ser reposta.

A solução é técnica e conhecida: enterrar rede onde faz sentido, criar redundância e automatizar o restauro, por exemplo. O que falta é o incentivo certo. O quadro jurídico-regulatório trata o vento severo como força maior, tolera reposições lentas e dilui o custo social do apagão. O apagão de Leiria não foi um “ato de Deus”; foi o resultado previsível de um erro de design protegido por uma lei que não penaliza a fragilidade de um serviço essencial — enquanto o Governo deste Portugal adormecido continua ocupado em tapar o Sol com a peneira.

Luis Miguel Novais

Acerca de mim