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Riqueza, civilização e prosperidade nacional

domingo, 1 de março de 2026

A guerra justa

Acabo de ler um interessante artigo de opinião publicado hoje na The Economist, intitulado At last, a just war, onde o antigo primeiro-ministro israelita Yair Lapid começa assim:

“Escrevo estas palavras a partir do abrigo antiaéreo da minha casa. Comigo estão a minha mulher, a minha filha e três jovens seguranças que se sentem um pouco embaraçados com toda a situação. Este não é um momento fácil. Ninguém gosta de ver a sua vida ameaçada. Mas, como a esmagadora maioria dos cidadãos israelitas, acredito que isto é necessário.”

A citação dispensa comentários longos: a ideia de que pode existir uma guerra necessária — e, por consequência, uma guerra justa — surge aqui não como teoria, mas como experiência vivida.

A questão não é nova. Coloca-se, para nós cristãos, pelo menos desde Santo Agostinho (354–430), que procurou reconciliar a mensagem evangélica com a realidade política de um mundo onde o mal não desaparece por decreto moral. 

Mais tarde, São Tomás de Aquino (1225–1274) sistematizou a doutrina na Summa Theologiae (II-II, q.40), estabelecendo três condições cumulativas para que uma guerra pudesse ser considerada justa: que seja declarada por autoridade legítima, fundada numa causa justa e conduzida com intenção moralmente correta.

A reflexão nunca pertenceu apenas ao cristianismo. A tradição islâmica desenvolveu igualmente conceitos próprios sobre a legitimidade do conflito, e a tradição judaica debate-se há séculos com a tensão entre sobrevivência coletiva e mandamento moral.

Quando hoje vemos o Irão atacar também Estados islâmicos, (maioritariamente sunitas, mas também xiitas) percebemos que a questão ultrapassa fronteiras políticas e atravessa as três grandes religiões abraâmicas. Não é apenas um problema estratégico; é um problema civilizacional.

Talvez isso nos devesse conduzir a uma conclusão mais simples e mais antiga. Se todas as tradições religiosas procuram definir quando a guerra pode ser justa, é porque reconhecem implicitamente que ela é, por natureza, uma exceção trágica. No limite, a única guerra plenamente justa seria aquela que não chega a acontecer.

Como recorda a Bíblia: “Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5:9).

Luis Miguel Novais

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