Em 1945, Orlando Ribeiro publicou Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. Nesse livro insuperado, ao descrever as grandes divisões da terra continental portuguesa, fixa o contraste entre o Norte atlântico e o Sul mediterrânico e ancora a sua transição no baixo Mondego e no sopé da Cordilheira Central. Em termos cartográficos, a linha que melhor traduz essa leitura corre da foz do rio Mondego (Figueira da Foz) à Serra da Estrela, acompanhando a bacia do Mondego até à montanha.
Neste nosso ano de comboios sucessivos de tempestades, de chuvas e ventos vindos do Atlântico — desta vez pouco contidos pelo santo anticiclone dos Açores, fora do sítio habitual — a tese de Orlando Ribeiro voltou a mostrar a sua utilidade. A persistência das massas húmidas oceânicas e a sua penetração pelo corredor do Mondego evidenciam, com clareza empírica, o que o geógrafo havia sintetizado: a porta por onde o Atlântico entra mais fundo no território.
Faz pensar que essa linha divisória coincide com o próprio traçado desses “comboios” que sobem pelo país até às neves da Estrela que, ao derreterem, fazem do Mondego o monstro de caudal que recentemente se viu. Entre o Atlântico e o Mediterrâneo, a geografia continua a explicar a atualidade e deveria servir de guia para soluções políticas.
Luis Miguel Novais
