Hoje faço uma entrada especial, única por natureza, neste diário intelectual. Como nos antigos epitáfios romanos, começo com uma fórmula simples: vixit felix. Viveu feliz.
Entre nós havia apenas vinte e cinco anos de diferença, o que sempre nos colocou numa curiosa proximidade de gerações. Durante muito tempo parecíamos quase irmãos. Era muito bonita — de uma beleza serena — e, à medida que o meu cabelo foi ficando branco, começou a acontecer uma pequena comédia social: mais de uma vez nos tomaram por casal. Divertíamo-nos com o equívoco.
Tocava piano e falava francês, duas marcas discretas de uma educação antiga que levava consigo sem ostentação. Era muito elegante e determinada. Arredondou as esquinas da vida, deixa filhos, noras e netas em harmonia. Talvez por isso, numa sexta-feira 13, a superstição pouco importa. O que importa cabe inteiro numa fórmula latina breve como aquelas que os romanos gravavam na pedra e nós na internet.
Luis Miguel Novais
