Eutanásia é uma palavra terrível precisamente porque nasceu de uma expressão bela. Vem do grego: eu, “bem”, e thanatos, “morte”. Queria dizer boa morte, morte serena, morte sem suplício. A linguagem começou por nomear um desejo humano compreensível: que o fim chegasse com paz. Mas as palavras, quando entram na política e na administração, podem ser deslocadas do seu centro moral. E assim chegámos a este ponto estranho em que uma expressão que sugeria acompanhamento, alívio, presença e piedade passou a servir também para designar o acto de causar a morte.
É esse deslizamento que importa recusar. Uma coisa é cuidar, mitigar a dor, suspender o excesso terapêutico, aceitar com humildade que a vida tem um termo. Outra, muito diferente, é transformar a mão que assiste na mão que mata. O passo não é pequeno, ainda que seja muitas vezes apresentado como compassivo, racional ou moderno. Pelo contrário: é um passo civilizacional grave, porque muda a natureza do limite. Deixa de se dizer que perante o sofrimento tudo deve ser feito para cuidar, e passa a admitir-se que perante o sofrimento se possa suprimir aquele que sofre. A morte tranquila deixa então de ser a forma humana de morrer e aproxima-se perigosamente da forma jurídica de matar.
Há trinta anos tive de decidir que era contra o aborto. Agora, confrontado, como por várias vezes disse e escrevi, inclusive aqui, com uma situação de homeostase, reafirmo com a mesma clareza que sou contra a eutanásia no sentido de tirar a vida. Digo-o sem agressividade e sem retórica, mas sem ambiguidade. Compreendo o desespero, compreendo o medo, compreendo até a tentação de chamar misericórdia ao gesto extremo. Não acompanho, porém, essa conclusão. Entre acompanhar a fragilidade e administrar a morte, fico do lado da vida, mesmo quando é ferida, dependente, diminuída ou terminal. Porque uma civilização mede-se também por isto: por saber estar ao lado de quem sofre sem o eliminar.
Luis Miguel Novais
