Li no Observador de hoje um importante artigo do padre Gonçalo Portocarrero de Almada, do Opus Dei, intitulado “A verdadeira Operação Marquês”. Registo a analogia proposta entre a devassa ao Marquês de Pombal e o processo contemporâneo que se apropriou ilegitimamente do nome. A leitura é sugestiva, mas anacrónica: uma devassa régia do século XVIII não se compara de todo a um processo penal num Estado de direito. E a autoridade principal invocada — Camilo Castelo Branco —, sendo literariamente poderosa, é historiograficamente imprópria como eixo probatório.
Acrescento, com o devido respeito intelectual, a partir da minha própria investigação nos papéis da Coleção Pombalina da Biblioteca Nacional de Portugal, uma nota que raramente aparece e que certamente o autor desconhece. Na correspondência privada do Marquês, no exílio em Pombal, com o filho que permaneceu na Corte, lê-se esta frase: “não podemos deixá-los faltarem-nos ao respeito.”
Passado todo este tempo, ainda devemos respeito ao Marquês de Pombal, que em 27 anos de dedicação à causa pública reformou este Portugal adormecido (que na sua altura era global), introduzindo modelos que aprendeu na Europa, em Londres e Viena, onde viveu largos anos. O respeito não prescreve.
Luis Miguel Novais
