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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Melgueiro e a Passagem do Ártico

Recomendo o podcast da Rádio Observador E o Resto é Ciência, com José Manuel Fernandes e Miguel Miranda, em particular o último episódio dedicado ao AMOC (Atlantic Meridional Overturning Circulation). Entre considerações úteis sobre a nossa Gaia global e os equilíbrios oceânicos que a sustentam, veio à conversa destes dois polímatas um nome esquecido: David Melgueiro.

A figura de David Melgueiro situa-se nessa zona intermédia entre facto histórico e negação mítica que a historiografia portuguesa conhece bem. A tradição, difundida em textos e cartografia europeia a partir do século XVIII, atribui-lhe uma travessia a partir de Macau por volta de 1660, seguindo pelo Pacífico Norte, entrando no estreito de Bering e percorrendo a costa setentrional da Sibéria até ao Porto Atlântico. Seria, em termos modernos, uma navegação pela Passagem do Nordeste, séculos atrás. Não existe, contudo, documentação portuguesa contemporânea que confirme a viagem: nem diários de bordo, nem registos oficiais. Daí a divisão entre os que a tomam por lenda e os que, mais cautelosos, admitem a plausibilidade técnica de uma travessia excecional em anos de gelo reduzido. A ausência de prova não equivale a prova de ausência; mas a prudência histórica exige que se mantenha a hipótese em suspenso.

Entretanto, a atualidade veio reabrir a questão sob outro prisma. A China acaba de confirmar a viabilidade prática da rota ártica entre a Ásia e a Europa e já indicou que pretende explorá-la comercialmente, integrando-a na sua estratégia logística global. Em termos de tempo de navegação, a travessia pelo corredor do norte russo permite poupar várias semanas face à rota pelo Suez. Não se trata de provar a viagem de Melgueiro; trata-se de confirmar que a passagem que lhe é atribuída é fisicamente possível e tende a tornar-se operacional. Por elementar justiça histórica, poder-se-ia até chamar-lhe Passagem de Melgueiro. Este Portugal adormecido deveria, ao menos, observar o exemplo do Pireu: quando as rotas mudam, mudam também os centros de gravidade do comércio e da estratégia. Convém estar atento.

Luis Miguel Novais

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