“América” nasceu como nome num mapa, não como nome de Estado: em 1507, num impresso na Europa central, a palavra foi usada para nomear a quarta parte do mundo. Portugal chamou-lhe Vera Cruz, em 1500. Séculos depois, um país que então não existia apropriou-se linguisticamente do termo. O que era continental tornou-se nacional; o que era comum passou a exclusivo — e essa apropriação acabou por moldar o uso corrente e a leitura política do mundo. América é hoje abreviatura e sinónimo de Estados Unidos da América.
No editorial de 15 de janeiro de 2026, a The Economist sustenta que a atual presidência de Donald Trump é um teste sério, mas não excecional, na história americana. Ao aproximar-se dos 250 anos como país independente, os Estados Unidos já atravessaram crises mais profundas — guerra civil, ruturas institucionais, colapsos económicos e conflitos sociais extremos — e sobreviveram. A tese não é moral; é histórica: a resiliência americana tem sido construída na adversidade, e é dessa experiência acumulada que o sistema retira a sua capacidade de correção. Um case study.
A conclusão, porém, é portuguesa. Este Portugal adormecido vai ter de assumir o decoupling desta América. Ontem, em Moscovo, esteve a nova embaixadora portuguesa e Vladimir Putin falou explicitamente em amizade. Não é mais do que isso — mas também não é menos. Do nosso lado, o momento foi simbólico: não foi Marcelo quem lá esteve, mas coincidiu com o seu adeus político, o presidente em fim de ciclo interno num tempo “lélé da cuca”. Como já cantava Bowie…
Luis Miguel Novais
