O 25 de Abril de 1974, momento fundador do nosso atual e benéfico regime de liberdade, apanhou-me com dez anos de idade. O subsequente 25 de Novembro de 1975, momento fundador do nosso também benéfico regime democrático, encontrou-me também menino. Pela natureza das coisas, não pude participar ativamente em nenhum deles.
Assisti como menino-espectador a tudo através do único canal de televisão existente, a preto e branco. Foi nesse contexto que acabei por simpatizar com a ideia liberal então associada, primeiro, a Francisco Sá Carneiro e, depois, a Francisco Lucas Pires. Revi-me nessa perspetiva política que, ao contrário da teoria do contrato social adotada pelo socialismo a partir de Rousseau — teoria que torna praticamente inevitável o Estado tutor ou ditador —, parte da constatação de que nascemos já inseridos numa sociedade para a qual não contribuímos. O nosso percurso de vida subsequente consiste, como notou Wittgenstein, em encontrar o nosso lugar de liberdade individual apesar dos outros, Estado incluído, dos quais não nos podemos desligar.
Essa ideologia política, não socialista, liberal, era a do defunto PPD. É dela que derivam (sem a cobrir) hoje a AD, a Iniciativa Liberal e, sim, também o Chega - e respetivos candidatos presidenciais. Como eu, há milhões de pessoas que, no domingo, não têm em quem votar.
Luis Miguel Novais
