Chamam-lhe depressão, mas é apenas um termo técnico, um preciosismo para designar um ciclone. O que entrou em Portugal e Espanha há dois dias, conhecido como Kristin, deixou um rasto impressionante de destruição, com vítimas mortais e danos materiais significativos, resultado de ventos extremos e precipitação intensa.
O ciclone causou lamentavelmente pelo menos cinco mortes confirmadas em Portugal, às quais se soma uma vítima mortal em Espanha. Registaram-se rajadas até 150 km/h em várias regiões, casas destruídas, queda generalizada de árvores e infraestruturas, interrupções rodoviárias e cortes massivos de eletricidade, afetando centenas de milhares de pessoas. O fenómeno atravessou depois território espanhol, mantendo impacto relevante em termos de vento, neve e perturbações logísticas.
O Pinhal do Rei, ou Pinhal de Leiria, e toda a região envolvente, incluindo a aldeia de Milagres, ficaram devastados. Ainda hoje persistem falhas graves em serviços básicos do século XXI: água, eletricidade, combustível e telecomunicações. Para além da violência do fenómeno natural, há um dado estrutural que não pode ser ignorado: a deficiente gestão da administração interna, traduzida em falta de prevenção, fraca resiliência das infra-estruturas, ausência de redundâncias e incapacidade de resposta célere e coordenada. Não se trata apenas de meteorologia extrema, mas de vulnerabilidades conhecidas e reiteradas de um sistema público que continua a falhar quando é mais necessário.
Luis Miguel Novais
