Em A Alma da Toga (Ángel Ossorio y Gallardo, 1919) vem descrita a advocacia como uma profissão de paixão e serviço ao modo de antanho. Cito de memória: doze horas do dia são para os outros, as outras doze (sono incluído) são para nós, advogados. Não por acaso o autor insistia que a advocacia não é apenas um meio de vida, mas uma forma exigente de vida.
Quando presidi à Comissão Futuro do Advogado da União Internacional dos Advogados (2006–2011) discutíamos já essa transformação: a passagem de uma advocacia marcada pela figura social do gentleman amateur, sustentada pela reputação pessoal e pela autonomia liberal, para uma profissão plenamente integrada na economia global dos serviços. Escritórios organizados como empresas, clientes institucionais, concorrência internacional e estruturas de gestão tornaram inevitável pensar a advocacia também em termos económicos.
Parece impossível este espectáculo degradante a que assistimos neste Portugal adormecido a propósito da defesa judicial de José Sócrates: como qualquer outro cidadão tem direito à presunção de inocência e à tutela jurisdicional efectiva, garantidas pelo Estado que — como a qualquer repatriado — não nega o que é devido (e depois manda a conta). Ou voltamos às fogueiras?
Luis Miguel Novais
