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Riqueza, civilização e prosperidade nacional

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Eterno Presente (Envenenados)

Francis Bacon, nos Essays (1625), atira a fórmula sem piedade: “histories make men wise”. A história, aqui, não é culto do passado nem arqueologia moral: é método para governar melhor, para desconfiar de slogans, para medir custos e efeitos. É precisamente por isso que o poder gosta tanto de a domesticar: reescrevê-la, simplificá-la, transformá-la em catecismo identitário. Uma história assim já não torna ninguém sábio; torna-o obediente.

Do outro lado, James Joyce publica Ulysses (1922) e deixa a ferida exposta: a história pode ser “um pesadelo do qual tento acordar”. O pesadelo é político: quando o passado é elevado a destino, a cidadania passa a ser uma herança e não um acto; a legitimidade nasce de mitos, não de responsabilidade; e o Estado passa a administrar ressentimentos como se fossem políticas públicas. Aí, o “presente” deixa de ser presente: é apenas repetição.

O cruzamento é o retrato do nosso tempo: elites que invocam Bacon para exigir “realismo” e “ordem”, mas praticam propaganda; e tribos que invocam Joyce para recusar deveres comuns, refugiando-se numa subjetividade que dispensa factos. As histórias só fazem homens sábios quando permanecem instrumento crítico — e, portanto, perigoso para quem governa mal. Quando a história é monopolizada (pelo Estado, pela nação, pelo partido, pela causa, pela confraria, pela loja, pelo cambão), deixa de ensinar: passa a mandar. E, nesse dia, acordar do pesadelo torna-se um dever cívico. Quotidianamente.

Luis Miguel Novais

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