Não deixa de ser irónico que a resposta dos atuais líderes da União Europeia ao America First seja, no essencial, um “Made in EU”. A lógica é semelhante: reduzir dependências externas, reindustrializar o espaço económico próprio, reforçar cadeias de valor internas e privilegiar produção doméstica em sectores estratégicos — defesa, energia, semicondutores, inteligência artificial.
As propostas recentes apontam nessa direção: preferência europeia em compras públicas, financiamento comum para indústria estratégica, maior flexibilidade nas regras de auxílios de Estado e instrumentos financeiros capazes de competir globalmente. O enquadramento encontra-se no diagnóstico apresentado no relatório Draghi sobre a competitividade europeia: fragmentação regulatória, falta de escala, insuficiência de capital e atraso tecnológico face aos Estados Unidos e à China. A resposta sugerida é mais integração económica, mais capital e uma política industrial europeia coordenada.
Resta saber se a União Europeia conseguirá fazer aquilo que anuncia. A tradição europeia tem sido regulatória, não industrial; de liberdade económica, não de intervencionismo. Depois de décadas a criticar o condicionamento industrial, voltamos?
Luis Miguel Novais
