Sísifo empurra a pedra. Não porque vá chegar ao cimo, mas porque esse é o seu gesto. A repetição educa-o. O meu tio Rui morreu hoje pintor. Há naturezas que não se trocam. O que muda é a consciência com que se sobe o monte.
Na leitura de Tomás de Aquino, a liberdade não está em negar o real, mas em escolher o bem conhecido como tal. Dizer “seja feita a Vossa vontade” não é desistir de agir; é o acto mais alto de autodeterminação. A pedra permanece, mas deixa de ser apenas peso: torna-se matéria de aperfeiçoamento. Empurrá-la deixa de ser condenação ou revolta e passa a ser decisão.
Fica o rito do ofício: à primeira quem quer cai, à segunda só cai quem quer. Volta, sempre.
Luis Miguel Novais
