Os Estados Unidos da América publicaram discretamente, na passada sexta-feira, o seu novo documento estratégico de defesa. Sem encenação política ou mediática, o texto diz bastante — talvez mais pelo tom do que pela novidade formal. Confirma formalmente uma inflexão que há muito se anunciava: a redefinição prática da relação transatlântica em matéria de segurança e defesa.
Sobre a Europa, o documento é particularmente claro. Lê-se, ipsis verbis:
“Como a Estratégia de Segurança Nacional deixa claro, a assunção, pela Europa, da responsabilidade primária pela sua própria defesa convencional é a resposta às ameaças de segurança que enfrenta. O Departamento irá, por conseguinte, incentivar e capacitar os aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte a assumirem a responsabilidade principal pela defesa convencional da Europa, com um apoio crítico, mas mais limitado, dos Estados Unidos da América. No centro deste esforço, o Departamento da Defesa trabalhará de perto com os nossos aliados para assegurar que estes cumprem o compromisso de despesa em defesa assumido na Cimeira da Haia. Procuraremos igualmente recorrer aos processos da Organização do Tratado do Atlântico Norte para apoiar estes objetivos, ao mesmo tempo que trabalhamos para expandir a cooperação industrial de defesa transatlântica e reduzir as barreiras ao comércio no domínio da defesa, de modo a maximizar a nossa capacidade coletiva de produzir as forças necessárias para alcançar os objetivos de defesa dos Estados Unidos da América e dos seus aliados. Por fim, seremos claros com os nossos aliados europeus quanto ao facto de os seus esforços e recursos deverem estar prioritariamente concentrados na Europa. Isto pela simples razão de que é na Europa que eles podem — e devem — fazer a maior diferença para a nossa defesa coletiva.”
A leitura política é inequívoca. Não se trata do fim da Organização do Tratado do Atlântico Norte, mas do fim de uma certa Organização do Tratado do Atlântico Norte — aquela em que a Europa podia contar com a garantia implícita do guarda-chuva americano.
Luis Miguel Novais
