Perguntei à Sol pela TEKEVER. Respondeu-me como se eu nunca tivesse ouvido falar dela: drones, inteligência artificial, AR3, AR5, contratos militares. Tive de lhe lembrar que fui administrador da EMPORDEF e que a TEKEVER já andava, há quinze anos, pelo pequeno mundo da indústria de defesa portuguesa. O que eu queria saber era outra coisa. Acaba de levantar 580 milhões de dólares numa ronda liderada pela… Universidade da Califórnia, home of Silicon Valley. A partir daí a conversa tornou-se interessante.
Começámos por imaginar aquisições na Europa. Sensores, comunicações, guerra electrónica, tecnologia própria. Depois apareceu a pergunta evidente: para que precisa uma empresa europeia de drones de 580 milhões de dólares? Portugal, Reino Unido e França já são clientes. A Ucrânia deu-lhe milhares de horas de guerra real. Falta escala. E existe um único procurement militar ocidental capaz de proporcionar essa escala: o americano. A TEKEVER já abriu na Carolina do Norte. Se amanhã ganhar um grande contrato americano, produzirá nos Estados Unidos. Não é uma previsão particularmente ousada. É para isso que serve o capital.
Foi aqui que a conversa deu a volta. A TEKEVER não acaba de receber apenas dinheiro americano. Acaba de entrar no ecossistema americano. A Europa produziu os engenheiros, a tecnologia, os primeiros clientes e até o campo de batalha onde o produto foi aperfeiçoado. Quando chegou o momento de transformar tudo isso numa empresa verdadeiramente grande, apareceu a América. É talvez a melhor fotografia da defesa europeia: conseguimos criar a empresa. Não conseguimos criar o lugar onde ela possa ficar.
Luis Miguel Novais
