Muito interessante o último episódio de Past Present Future, o podcast de David Runciman: “An Ageing World: Lifespan vs Healthspan”. Runciman conversa com o geneticista Adam Rutherford sobre uma distinção que provavelmente vai ocupar boa parte deste século: viver mais não é necessariamente viver melhor. Falam dos GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, dos limites da longevidade humana e da diferença decisiva entre aumentar o número de anos de vida e aumentar o número de anos em que continuamos realmente vivos.
Vale especialmente a pena ouvir um biólogo experiente desmontar com tranquilidade alguma da excitação atual em torno da inteligência artificial aplicada à biologia. Rutherford recorda o essencial: a biologia leva milhões de anos de avanço sobre nós. Os atuais modelos de inteligência artificial parecem bastante menos impressionantes quando comparados com esses milhões de anos de conhecimento não linguístico incorporado num corpo que cicatriza, combate infecções, corrige erros e continua, quase sempre sem nos consultar, a tentar manter-nos vivos.
E depois há a economia da coisa. Rutherford observa que aumentar o healthspan pode ser economicamente positivo; aumentar apenas o lifespan pode ser precisamente o contrário, pressionando saúde, pensões e sistemas sociais. Agora acrescentemos um pequeno exagero para perceber o problema: imaginemos que passamos a viver até aos 200 anos. Reformamo-nos aos 67? Trabalhamos até aos 150? Herdamos aos 130? A economia construída para vidas de oitenta anos teria de ser praticamente inventada de novo. Matusalém, segundo o Génesis, chegou aos 969. A Bíblia não esclarece mais nada.
Luis Miguel Novais
