Nos quase 250 anos da democracia americana, que Alexis de Tocqueville fixou em A Democracia na América (publicado muito mais tarde, em 1835), continua a relevar o papel já então desempenhado pela imprensa local e pelas múltiplas formas de associação espontânea dos cidadãos. A circulação livre das ideias, sem tutela do Estado ou de corpos intermédios, era para Tocqueville um dos fundamentos essenciais da liberdade moderna. Cada cidadão falava, em larga medida, à sua aldeia, através de gazetas locais. Mas falava livremente.
Quase dois séculos depois, acabo de publicar no LinkedIn um texto sobre inteligência artificial (traduzido do Machine Learning deste Portugal Adormecido). Em poucas horas, o respetivo algoritmo começou silenciosamente a distribuí-lo por leitores situados muito para além do meu círculo habitual, pessoas completamente fora da minha geografia relacional, segundo as reações. Uma espécie contemporânea de mensagem dentro de uma garrafa: a ideia já não circula apenas na velha gazeta local de Tocqueville, podendo hoje atravessar oceanos invisíveis e alcançar inteligências naturais remotas que jamais encontraríamos no mundo físico.
É, sem dúvida, progresso civilizacional. Mas com um subtil travo amargo. Tocqueville viveu numa democracia onde cada cidadão falava sobretudo à sua aldeia, mas controlava diretamente a circulação da sua mensagem. Nós vivemos numa democracia onde cada cidadão pode potencialmente falar ao mundo inteiro, mas através de correntes invisíveis governadas por algoritmos proprietários, alheios e opacos. Talvez por isso a nova fronteira possa resumir-se assim: a primeira era da inteligência artificial consiste em máquinas substituindo tarefas humanas. A segunda deveria consistir em máquinas protegendo o homem de outras máquinas. Tocqueville não poderia ter imaginado a Democracia a ziguezaguear assim.
Luis Miguel Novais
