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Riqueza, civilização e prosperidade nacional

terça-feira, 16 de junho de 2026

Bom barqueiro

“Deixai-me passar, tenho filhos pequeninos para acabar de criar.” Era assim que aprendíamos no recreio do jardim infantil a primeira gramática do poder. Havia uma passagem, havia quem a guardasse, havia uma rede, e havia sempre alguém que ficava preso. O jogo parecia infantil, mas talvez já fosse uma pequena lição sobre fronteiras, autoridade e selecção.

Mais tarde, nos cinemas, a proibição etária era outra forma de rede. Eu gostava de ver os filmes para os quais ainda não tinha idade. O porteiro e eu fazíamos de conta que não sabíamos. Não era o fim da civilização. Era, talvez, uma das suas pequenas escolas: a regra existia, o adulto avaliava, o adolescente aprendia a atravessar o mundo sem que o mundo tivesse de ser abolido.

Hoje, quando se propõe proibir redes sociais a menores em nome da protecção das crianças, convém recordar que entre proteger e interditar há uma diferença essencial. A infância não se defende fechando todos os rios. Defende-se ensinando a passar. O bom barqueiro não é o que fecha a margem. É o que ensina a travessia. Qualquer semelhança entre a fraqueza de um político prestes a cair, como Starmer, e a realidade de a legislação ser frequentemente usada como arma é pura coincidência.

Luis Miguel Novais

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