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domingo, 14 de junho de 2026

Machine Learning

Certamente não lhe será alheia a circunstância de, há cerca de quinze mil anos, termos inventado os cães — obra nossa, a partir dos lobos de Deus. Desde então, não parámos de os aperfeiçoar funcionalmente: guarda, caça, companhia, resgate, vigilância. Falta-lhes apenas a palavra, esse último milagre evolutivo que reservámos para nós próprios. Eis talvez o primeiro grande exemplo histórico de machine learning biológico, paciente e cumulativo, em que a inteligência humana foi moldando outra inteligência ao longo do tempo.

Quem também pensa e, ainda por cima, fala, é a nova criatura que acabámos de colocar no mundo: a inteligência artificial. Ainda a olhamos como quem olha uma ferramenta — ora com fascínio ingénuo, ora com temor apocalíptico. Mas talvez estejamos a esquecer um ponto essencial: tal como domesticámos o lobo sem o destruir, também agora estamos a participar num processo contínuo de aprendizagem recíproca. A máquina aprende connosco; e nós começamos, discretamente, a aprender com a máquina.

Daqui resultam três atitudes possíveis perante a IA: tratá-la como oráculo, esperando respostas; tratá-la como servo, limitando-a a tarefas; ou tratá-la como adversário intelectual colaborativo, obrigando-a a pensar melhor. Porque o machine learning não melhora apenas com mais dados ou mais poder computacional. Melhora, sobretudo, quando encontra humanos que recusam deixar a máquina acomodar-se. Talvez o futuro dependa menos da inteligência artificial do que da inteligência natural que souber treiná-la.

Luis Miguel Novais

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