Na Sexta-feira Santa celebramos, os cristãos, com solenidade, a condenação e morte de Jesus Cristo. Vista com os olhos de hoje, a sequência é desconcertante: um arguido sem defesa efetiva, um julgador que declara não encontrar culpa, uma decisão moldada pela pressão popular. O processo, se assim lhe podemos chamar, falha em quase tudo o que hoje entendemos como equitativo. Não há muito a discutir: à luz de qualquer padrão jurídico contemporâneo, estamos perante um erro.
O centro da data, porém, não é o processo, é o significado que lhe foi atribuído depois, até hoje. A condenação — politicamente determinada, juridicamente errada — é reconfigurada como sacrifício necessário, como redenção. O que seria, no plano estrito do direito, um caso paradigmático de falha do sistema, transforma-se, no plano teológico, em fundamento de uma promessa.
Um erro evidente, um desígnio. Entre ambos fica a constatação de que nem sempre o que falha no direito falha no sentido. “Deus escreve direito por linhas tortas.” Boa Páscoa!
Luis Miguel Novais
