Entre os meus seis e dez anos de idade, entre janeiro de 1969 e março de 1974, sentei-me muitas vezes diante do televisor para ouvir as Conversas em Família de Marcelo Caetano. Eram serões em que o chefe do governo se dirigia ao país como quem fala à casa inteira, num tom professoral, quase paternal, explicando o rumo do regime como se a nação fosse menor de idade. Para uma criança, aquilo era apenas o cenário de fundo; para os adultos, era a tentativa de dar voz serena a um sistema que já rangia por dentro, até que chegou o Portugal e o Futuro, e o futuro de abril e depois.
Sobre os erros e virtudes desse governo falou anos mais tarde, com clareza, Marcelo Rebelo de Sousa, o atual Presidente da República, cujo percurso familiar tocou de perto o do chefe do regime: Marcelo Caetano foi padrinho de casamento dos seus pais. Na longa conversa com Maria João Avillez, disponível nos podcasts da Rádio Observador, no programa “Eu Estive Lá”, Episódio 1, “Marcelo e o Caminho para a Revolução”, de 15 de janeiro de 2024, o atual Marcelo descreve por dentro a ambiguidade daquele tempo que levou à revolução: a promessa de evolução na continuidade, a incapacidade de romper com a guerra, o peso de uma máquina política incapaz de se reformar a tempo, o salto económico, a viragem europeia. Enfim, a primavera marcelista que não chegou a verão. Mitra para o Marcelo, sussurrava-se então; até o menino que eu era compreendia o trocadilho de descontentamento em tempo de censura, em que mitra soava a merda.
Ouvi agora o último discurso anual em funções do atual Marcelo (de “neutralidade absoluta”, segundo o próprio) e dei por mim a pensar nessas linhas discretas de continuidade. Outra Conversa em Família, sem sequer deixar de fora a Ilustre Casa arruinada do Gonçalo de Eça, enquanto o sistema acumula tensões e adia escolhas difíceis. O sebastianismo de sempre. A pergunta que fica, neste Portugal adormecido, é simples e inquieta (por entrelinhas de Mitra para o Marcelo): que caminho vamos seguir desta vez?
Luis Miguel Novais
