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quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Sospiro Amaro

Por uma daquelas transformações coletivas inexplicáveis, o Advento anual que hoje termina passou do sospiro amaro de Dante ao Pai Natal do shopping. A espera metafísica da humanidade, comprimida no intervalo entre a noite mais longa e o primeiro clarão da luz, tornou-se uma coreografia de consumo e ruído, como se a antiga tensão entre tempo humano e tempo divino tivesse sido substituída por descontos e decorações.

Em Dante, o sospiro amaro era o reconhecimento da nossa distância: a consciência de que a humanidade, deixada a si mesma, respira com dificuldade perante o infinito. Era o suspiro da condição humana antes da resposta de Deus. No calendário cristão, esse suspiro preenche o Advento: quatro semanas em que o mundo revive a expectativa de algo maior do que a sua própria respiração.

Ainda assim, todos os anos, quase inadvertidamente, permanece um instante suspenso. Na madrugada silenciosa de 24 para 25, renova-se a intuição primordial: aquela em que o suspiro amargo se dissolve porque o mundo, por um momento, acredita que a distância se fechou. Não pela coreografia moderna, mas pelo gesto antigo: uma criança, uma promessa, uma luz mínima a interromper a sombra. Natal.

Luis Miguel Novais

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