Em Dante, o sospiro amaro era o reconhecimento da nossa distância: a consciência de que a humanidade, deixada a si mesma, respira com dificuldade perante o infinito. Era o suspiro da condição humana antes da resposta de Deus. No calendário cristão, esse suspiro preenche o Advento: quatro semanas em que o mundo revive a expectativa de algo maior do que a sua própria respiração.
Ainda assim, todos os anos, quase inadvertidamente, permanece um instante suspenso. Na madrugada silenciosa de 24 para 25, renova-se a intuição primordial: aquela em que o suspiro amargo se dissolve porque o mundo, por um momento, acredita que a distância se fechou. Não pela coreografia moderna, mas pelo gesto antigo: uma criança, uma promessa, uma luz mínima a interromper a sombra. Natal.
Luis Miguel Novais
