Augusto Santos Silva declarou que os candidatos presidenciais não cumprem os requisitos mínimos para o cargo. A afirmação, vinda de quem ocupou a segunda figura do Estado, parecia anunciar uma reserva de prudência institucional. Mas, agora, essa mesma voz avançou para um apoio político explícito a um dos candidatos, o apoiado pelo seu partido, dissolvendo a fronteira entre a avaliação constitucional e a preferência partidária.
O gesto não é apenas contraditório; é revelador. Ao enunciar um critério de exigência e, logo depois, desmenti-lo pela prática, Augusto Santos Silva transforma a própria régua num objeto maleável. Fica a sensação de que o problema já não está nos candidatos, mas na leveza com que se abandona a coerência. Assim se desfaz, em tempo real, a autoridade silenciosa que muitos ainda lhe reconheciam.
Com este movimento, Augusto Santos Silva sai da lista dos que prezam consistência e reserva institucional, recordando certas metodologias trotskistas — de desqualificar o quadro inteiro e, no minuto seguinte, erguer uma exceção táctica por entrismo e calculismo.
Luis Miguel Novais
