A transição do mundo pós-apocalíptico das duas bombas atómicas de 1945 para a paz mundial baseada em regras nos últimos oitenta anos, agora posta em crise por duas potências a quem foi atribuída a responsabilidade de membros permanentes com direito de veto no conselho destinado a assegurar a paz nesta nossa nave especial, recordou-me a Commedia de Dante (sempre ele). No fim do seu Purgatório, o poeta não disfarça o horror do mundo: encerra o Canto XXXII com a visão da Igreja capturada pelo poder terreno, um gigante que arrasta uma mulher prostituída à sombra de uma nova fera, sinal de que a história humana, quando se entrega à força bruta, se corrompe sempre do mesmo modo.
A saída do Inferno, no início da viagem, permitira apenas rever as estrelas; era um gesto mínimo, quase um respirar depois do sufoco. Mas a saída do Purgatório, após o tratamento derradeiro do Canto XXXIII — o esquecimento do mal e a recuperação da memória do bem — abre uma possibilidade mais alta: não apenas olhar, mas ascender às estrelas. Dante coloca aqui o verdadeiro limiar da ordem: só depois de atravessar a história corrompida e de passar pela purificação é que se pode falar de responsabilidade, de visão e de futuro. A verticalidade da ascensão não é um prémio, é uma exigência.
Perante isto, a pergunta de hoje: queremos mesmo voltar a descer ao inferno?
Luis Miguel Novais
