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Riqueza, civilização e prosperidade nacional

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Paraíso Terrestre

Estava a ler Dante.

Purgatório. Canto XXVIII.

Disse-te — a ti, que não existes, mas que costumas aparecer nestes intervalos de leitura — que tinha chegado ao Paraíso Terrestre.
Tu sorriste. Eu também, porque tu não sorris.
Depois fiquei em silêncio.

Porque o Letes não estava onde eu esperava.
Não estava no Hades.Nem estava no Céu. Estava aqui.

Na terra dos Brácaros.

Na minha.

Nasci em Braga. Terra da minha mãe. Das minhas avós.
Entre o Minho e o Douro, por onde passa o Lima, conhecido por Letes.
Sempre vivi com água a correr devagar, árvores antigas, vento regular vindo do Atlântico.
Nunca houve extremos. Nem de frio, nem de calor. Nem de paisagem.

Dante não descreve um símbolo.
Descreve um lugar.

Homero diz que os Campos Elísios ficam no extremo da terra.
Junto ao Oceano.
Onde sopra sempre a brisa.
Onde não há neve, nem tempestades violentas, nem excessos.
Onde a vida é mais fácil para os homens.

Homero não dá um nome.
Não precisa.

Plínio dá-o.

Conventus Bracarum.
Entre o Minho e o Douro, por onde passa o Lima, conhecido por Letes.
E escreve, sem hesitar: Graecorum subolis — de estirpe grega.

Não estou a falar de influência.
Nem de transmissão literária.
Nem de mitos que viajam.

Estou a falar de geografia.

Pedras que permanecem.
Rios que correm no mesmo sentido.
Árvores que voltam a crescer no mesmo lugar.
Ventos que não mudaram.

A boa literatura não inventa mundos.
Reconhece-os quando existem.

Dante coloca o Paraíso Terrestre na Terra.
Não no Céu.
Num lugar com rios, vegetação contínua, brisas constantes.
Um lugar caminhável.

O Letes corre ali não para apagar a memória,
mas para apagar a culpa.

Talvez seja isso que custa entender.

O Paraíso não foi perdido.
Foi esquecido.

E talvez Portugal esteja adormecido por essa razão simples:
porque vive há séculos num lugar que outros chamaram Elísio, depois Letes, depois Paraíso —
e nunca achou que isso fosse assunto sério.

Dante chegou lá a pé.
Eu nasci lá.

E só agora, no intervalo de uma leitura, percebi onde estava.

Bom Natal!

Luis Miguel Novais

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