Foi amplamente noticiado nos Estados Unidos da América o caso do cidadão português suspeito de ter matado várias pessoas, incluindo num campus universitário. Um caso grave, individual, que pertence aos tribunais e à lei — e apenas a isso. A responsabilidade é pessoal, como sempre foi na tradição jurídica ocidental desde há muitos séculos.
Em Portugal, porém, o candidato presidencial André Ventura insiste em construir a sua narrativa sobre a ideia de que a criminalidade é, em larga medida, importada do estrangeiro. A mensagem é simples, emocional e politicamente útil: sugerir que a insegurança nasce de fora, como se o passaporte tivesse propriedades morais e como se a cidadania portuguesa fosse, por si só, uma garantia de virtude.
E, ironicamente, enquanto Ventura aponta o dedo aos estrangeiros cá dentro, Donald Trump, nos Estados Unidos da América, já aproveita o caso para fazer exatamente o inverso: criminalizar genericamente os portugueses, como se todo um povo pudesse ser reduzido à conduta de um único indivíduo. Basta ser português, segundo esta retórica, para carregar automaticamente o selo de suspeição. É o nacionalismo elevado ao seu grau mais tóxico: a culpa coletiva, ajustada conforme a conveniência política do dia. Pois.
Luis Miguel Novais
