O recolher obrigatório em casa por via da actual pestilência trouxe-me de novo à patuscada fílmica, ou binjada (para verbalizar na língua portuguesa o binge da língua inglesa lançado pela Netflix - esse videoclube dos tempos modernos que nos pôs, em conjugação com a porcaria do vírus, a ver filmes durante mais de duas horas seguidas - coisa que, antes, só mesmo Manoel de Oliveira e quejandos).
Velho de dois anos, o meu algoritmo da Netflix já começa a fazer-me sugestões tão úteis quanto fazia o seu homólogo humano do Blockbuster, agora defunto videoclube físico vizinho. Ontem, o coiso sugeriu-me Los Favoritos de Midas (minisérie espanhola que ganhou os sempre inventivos títulos alternativos Os Amigos de Midas, em língua portuguesa, e The Minions of Midas, em língua inglesa). Que lá me pôs a binjar até às quatro da manhã.
Felicito a inteligência do argumento de Miguel Barros e Mateo Gil, baseado numa história de Jack London. Mais um retrato possível das invisíveis correntes que atravessam a nossa sociedade actual (cheia de maçonarias, opus, copus, whatsapos e outras obediências, mais ou menos lassas, mais ou menos virtuosas, mais ou menos indigeríveis, que excluem em lugar de incluir, marginalizam em lugar de integrar, corrompem em vez de solidificar o tecido social).
A meu ver, os inimigos de Midas somos nós, aqueles que nos interessamos pela verdade e pela justiça. E ficámos em casa, pelos outros.
Luis Miguel Novais
