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Riqueza, civilização e prosperidade nacional

sábado, 21 de novembro de 2020

Decência

Um artigo de ontem no jornal da associação dos juristas dos Estados Unidos da América (a American Bar Association, que não é de bares é de barra de tribunal), dá-me o mote: The power of decency in the legal profession, por Susan Smith Blakeley (aqui). Concordo, recomendo e generalizo às outras profissões. A todas.

Decência tem muitos sentidos, há muito tempo. O primeiro dicionário assumido da língua portuguesa (o Morais, de cuja edição de 1889 cito) distingue decência de decoro e conveniência, por um lado, e decência de dignidade e gravidade, por outro. A maior parte de nós, hoje em dia, é capaz de compreender a subtileza das distinções do Morais, mas interpreta decência com sinonimia a decoro, conveniência, dignidade e gravidade. Tudo junto. Ou não.

Na página oficial do Vaticano no Instagram surgiu esta semana um gósto a uma modelo brasileira, que logo aproveitou para fazer a merecida publicidade às formas. Segundo também leio, o Vaticano já pediu as devidas explicações ao Instagram - ou ao dedo malvado que clicou duas vezes, ou à utilização indecente.

Como dizia o moderno Schumpeter há um dias (refiro-me à homónima coluna da revista The Economist, não ao já falecido economista que criou a hoje, infelizmente, popular expressão "destruição criativa"): "the fight back against big tech's feudal lords has begun". A exploração do ser humano pelos dados, que nos mantém escravizados nos balanços engordecidos das donas das redes sociais, deverá tomar o mesmo caminho da servidão da gleba: "free the data serfs!". O que hoje se passa, convenhamos, não é decente.

Ainda mais indecente (se cabe) é a falta de gravidade, dignidade, conveniência e decoro que veste a Política atual. Da União Europeia (presa por uma questão de lana caprina sobre ser, ou não, devida a mesma regra de Direito que sustenta os próprios Estados), à China (cuja diplomacia se propõe hoje até furar olhos), aos Estados Unidos da América (pendurados por um fino fio sobre um edifício onde está para ocorrer uma implosão). Apenas para nomear algumas das indecências.

Maior (mesmo) falta de decência resulta, hoje, de quem não usa máscara quando está diante de outro ser humano. Os cemitérios, hospitais e lazaretos estão cheios de quem não se cobriu a boca e o nariz diante de hospedeiros do invisível e insidioso vírus covid. A Organização Mundial de Saúde veio esta semana dizer que se todos usássemos máscara nem sequer seria necessário confinamento.

Estes tempos de pestilência são uma boa ocasião para afirmarmos a decência. Em geral.

Luis Miguel Novais

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