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Riqueza, civilização e prosperidade nacional

sábado, 11 de maio de 2013

O mexilhão

Quando era míudo crescia entre os alvores, desamores e amanhãs que cantam de uma revolução. Tinha dez anos de idade em 1974. E fartei-me de ouvir que, entre o mar e a rocha, quem se lixa é o mexilhão.

Por um acaso que não pude dominar nasci do lado errado da revolução. Do lado da entretanto extinta aristocracia industrial do norte. Ou assim a concebo, pelo menos eu. Entretanto, as circunstâncias mais ou menos revolucionário-progressistas forçaram-me a suar as estopinhas para evitar a falência e contribuir para a recuperação do grupo industrial fundado pelo meu bisavô. Entre outras coisas, que resolver problemas tem sido a minha sina. Com as greves e outras ameaças mais ou menos veladas, que enfrentei ao leme, dando a cara, aprendi a enfrentar mares alterosos. É difícil esquecer o olhar de quem teme pelo emprego. Vi esse medo, olhos nos olhos, a centenas de operários. Correu bem, felizmente. Mas mantenho gravado, como por ferros em brasa, o valor do emprego. Ainda recordo bem um comentário da época, estávamos na década de noventa do século passado, parece até que nem foi ontem: com vinte por cento de desemprego, um de nós os cinco aqui à mesa está desempregado.

A verdadeira conquista da revolução de  25 deAbril de 1974 não foi a liberdade. Essa temos vindo a conquistá-la, a penas é certo, mas já desde a revolução de 24 de Agosto de 1820, com guerras civis e revoluções pelo meio, mas vai já para quase duzentos anos. A verdadeira conquista desta revolução mais recente, do lado errado da qual eu nasci, mas para a consolidação da qual tenho lutado desde que atingi a idade adulta, foi a criação do mexilhão. A classe média. O mexilhão sou eu. Será também o caro leitor. Não sei, digo eu. O que eu sei é que não foi para isto que eu lutei nestes últimos trinta anos, para continuar entre o mar e a rocha, a ver destruir emprego.

Luis Miguel Novais

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