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Riqueza, civilização e prosperidade nacional

sábado, 30 de março de 2013

A condição europeia de Portugal


Tinha dez anos de idade no 25 de Abril de 1974. O que implicou que no meu exame da quarta classe ainda tive de declinar os rios e linhas de caminho-de-ferro de um Portugal à época espalhado pelos quatro cantos do mundo. A condição europeia de Portugal não era então, há cerca de 40 anos, uma evidência.
Entretanto, abandonámos o estatuto de país colonizador do Portugal Ultramarino. No que nem fomos seguidos por todos os nossos actuais parceiros na União Europeia. Vários mantêm domínios e territórios ultramarinos ou extra-europeus. O caso da França é o mais bem organizado, com os seus Dom-Tom ainda espalhados pelos quatro cantos do mundo.
Com esta ânsia tão nossa de nos mostrarmos bons alunos somos muitas vezes mais papistas do que o Papa. Assim já sucedera no passado, por exemplo, quando os judeus que expulsávamos daqui de Portugal encontravam acolhimento aberto nos Estados papais. Assim voltou a suceder com a descolonização dos anos setenta do século vinte.
Depois veio a Europa. Essa mirífica tábua de salvação. Do norte de Portugal assisti, não passivamente, à desindustrialização e à desagriculturizacão de Portugal. Indústria é na Alemanha. Agricultura é na França. O resto é paisagem, habituei-me a compreender que era o mote europeu.
O não passivamente do parágrafo anterior explica-se pelas circunstâncias familiares que me levaram a ter de intervir na reestruturação do grupo industrial fundado pelo meu bisavô, para evitar a falência. Um grupo de empresas campeão industrial de outros tempos sobrevive penosamente agora, num país que não quis indústrias.
Agora já quer, outra vez. Portugal já voltou a querer indústrias exportadoras. E agricultura. Que afinal foi um erro. Afinal não podemos viver todos dos serviços. Precisamos de produzir e de exportar bens. Agora chamam-lhes transaccionáveis e procuram vantagens competitivas. Coisas práticas, das que não se encontram muito em modelos macro-económicos.
Entretanto, dedicámos duas boas décadas a destruir a indústria e a agricultura. A pouca que resta mantém viva a nossa esperança colectiva, como país, de que lá para daqui a outras duas décadas nos voltaremos a libertar dos programas de austeridade que nos vêm impostos por quem, chegado o momento, não faz contrição nem dá sinais de aliviar a cupidez.
Entretanto, a nossa condição exportadora vive asfixiada por um euro forte, um verdadeiro espartilho. Os móveis suecos são mais baratos em Portugal do que os fabricados nas indústrias de cá, de Paços de Ferreira ou de Paredes, por exemplo. Pudera, se a coroa sueca não vale sequer dez por cento de um euro. E quer lá a Suécia, outrora um nosso modelo, aderir ao euro.
Vivi toda a minha vida adulta na condição europeia de Portugal. Mas conservo nas paredes do meu escritório alguns mapas do Portugal não exclusivamente europeu de há 40 anos. Não por nostalgia. Neles relembro que o Portugal europeu, da União Europeia e da União Monetária, não é nenhuma vaca sagrada. E muito menos se a condição europeia nos transforma de colonizador em colonizado.
Luis Miguel Novais
(Texto primeiro publicado no jornal Diário de Notícias de 26 de Março de 2013)

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