Video killed the radio stars é o refrão de uma música popular dos
anos 80. E, de facto, desde essa década do século 20, com o advento de uma cada
vez mais forte vídeo cultura, não foram apenas as estrelas da rádio que
desapareceram: também os políticos se tornaram estrelas do ecrã. E veio a Era
do Vazio. Até aos sitins desta
primeira década que se segue aos anos zero do século 21.
Vejo nestes sitins espalhados pela Europa um reflexo de muitos Maios, de 68 a
11, ainda e sempre por realizar. Mas vejo também, talvez porque vejo de fora,
observando-os através do meu ecrã, o reflexo dos extremos em que a telegenia e
a cantiga da rua se tocam e, hoje em dia, se confundem com a democracia.
Retirando a democracia do seu
lugar natural: o sufrágio universal.
A política protagonizada por video stars é muito mais maquiavélica do
que aristotélica: tem muito mais de justas entre amigo-inimigo, do que de
torneios entre boa-má governação da sociedade e efectiva administração de
justiça.
“Num ambiente em que uma figura
pública pode assegurar a sua eleição propondo-se distribuir mais dinheiro
público a uma porção suficientemente alargada do eleitorado, e em que não há um
sentimento forte entre a população sobre essa distribuição ser vergonhosa ou
moralmente errada, os líderes que propõem esses pagamentos acrescidos dispõem
de uma tremenda vantagem sobre os seus oponentes”.
A este tipo de líderes não
deveríamos chamar-lhes democratas; deveríamos chamar-lhes demagogos. Que são o
que eles são.
Como escreveu, em 2004, Loren J.
Samons II no seu “What’s Wrong With Democracy? – From Athenian Practice to
American Worship”, de onde retirei a citação anterior, e onde concluiu:
“Quando foi a última vez que um
americano contemporâneo ouviu um político, um jornalista ou um comentador, ou
até um personagem (simpático) num filme popular, declarar abertamente que
aquilo que a maioria – aquilo que “o povo americano” – quer ou pensa é
moralmente errado ou intelectualmente falido?”
“Quando isso é o que os
verdadeiros líderes devem fazer, especialmente
numa democracia. Se os líderes contemporâneos não querem arriscar a sua
popularidade ou cargos eleitorais haverá alguma razão válida para segui-los?”
É esta, afinal, a pergunta que
retiro dos sitins que por esta Europa
fora se começam a espalhar.
No século 19, um jurista europeu
chegou à América e descreveu maravilhado o que aí viu. Chamava-se Tocqueville, e
o seu Da Democracia na América deveria ser, ainda hoje, de leitura obrigatória.
Aí relata como as pessoas têm importância.
Como cada um de nós importa,
expressando a sua opinião através do seu voto na escolha de líderes honestos e
competentes, porventura até belos (para quem isso importe), mas não demagogos.Luis Miguel Novais
