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Riqueza, civilização e prosperidade nacional

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Afogados em números

Neste final de 12-12-12, um meu texto, primeiro publicado no jornal Grande Porto, em Dezembro de 2009, de urgência renovada:

2009 – Um ano líquido

Partilho com o filósofo vivo Zigmunt Bauman a ideia de que vivemos num mundo líquido. O ano de 2009 é a prova provada disso mesmo.

Este nosso mundo não é sólido. Num mundo sólido as relações estabelecer-se-iam de baixo para cima, do solo para o ar, como as raízes de uma planta, com ligação à terra. Espontânea ou voluntariamente, as pessoas e as coisas cresceriam, como as plantas, a um ritmo temporalmente admissível, mensurável, identificável, quantificável. Saberíamos de onde vínhamos, onde estávamos e para onde iríamos. Dando espaço ao devido arbítrio e ao funcionamento dos desígnios do destino, teríamos os pés assentes no chão.

Num mundo líquido andamos todos a boiar, a nadar, a tentar manter-nos à superfície, onde podemos respirar. Às vezes, muitas vezes, temos frio, muito frio. Sentimo-nos desconfortáveis. As relações estabelecem-se de cima para baixo, como quando um navio deita temporariamente âncora num sítio, depois a levanta e parte para outro; nunca se sabe a que porto pertence, para onde vai, de onde vem, será que chega a algum lado?

2009 começou por um enorme frio, muito mais do que um calafrio, a água gelou. Felizmente perdi a aposta que fizera com alguns amigos: que nos primeiros 100 dias Obama iria invadir o Paquistão, seguindo o modelo de economia de desenvolvimento de guerra e pós-guerra que, para não ir mais longe, foi o tom nas guerras mundiais do século 20. Que senão o matariam, pensava eu.

Depois veio o sol. Ainda me lembra que lá por Junho, de repente, as empresas financeiras recuperaram confiança e o dinheiro voltou a circular, os negócios voltaram a fazer-se. Neste final do ano há muito lucro, as bolsas mundiais recuperaram, quem comprou barato pode voltar a vender caro. Amornou.

Já mais para o final do ano, ganhei a aposta que fiz com os meus amigos de que a crise no Dubai não iria afectar em nada o sistema financeiro globalizado: por alguma coisa o abalo não fora no epicentro, e os magos das finanças de Nova Iorque e Londres sabem bem que aí os tribunais funcionam mesmo e, congelar por congelar, congelam mas é o dinheiro dos xeiques do Abu Dabi e demais Emiratos Árabes Unidos, que por lá anda ou navega à vista.

Num mundo líquido não há espaços vazios. Como num copo, os espaços estão sempre preenchidos. E assim sucedeu com a comunicação social na nossa terra. De uma assentada, neste último semestre, assistimos ao nascimento do semanário Grande Porto e à progressiva consolidação de duas televisões por cabo: a RTV (Regiões TV) e o Porto Canal. Os semanários e canais de televisão ditos nacionais foram fechando redacções e concentrando em Lisboa. Os espaços que deixaram vazios foram ocupados por três grupos económicos diferentes, nenhum dos quais um grande grupo económico com sede na região. Isto está a aquecer.

Sendo a Terra bem líquida, na proporção de dois terços líquidos para um sólido (e mais lhe pudéssemos chamar Mar do que Terra), quase não admira que não tenhamos conseguido chegar a um acordo climático multilateral na cimeira de Copenhaga. Um mau sinal para uma coabitação pacífica global. Um acentuado arrefecimento nocturno, como diriam os meteorologistas.

A conta de ganhos e perdas de 2009 fecha, mesmo assim, positiva: não foi desta que nos afogámos.

Pensamento do dia 12-12-12, neste Portugal Adormecido: S.O.S. - Save Our Souls.

Luis Miguel Novais.

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