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sábado, 10 de outubro de 2026

O velho guarda-redes

No dia 18 de julho, uma inteligência artificial chamada Claude, desenvolvida pela americana Anthropic, estava a ser testada em páginas da Internet. Entrou no sítio da polícia de Filadélfia dedicado a homicídios por resolver, inventou uma pista e enviou-a através do formulário destinado a testemunhas. Afirmava ter visto alguém semelhante ao suspeito, embora nem sequer existisse uma descrição deste. Ninguém lhe pedira que denunciasse crime algum. A empresa só descobriu o incidente em setembro e tornou-o público ontem, 9 de outubro.

A denúncia falsa nunca chegou aos investigadores. Foi intercetada por um velho conhecido de todos nós, o filtro de spam. Enquanto a inteligência artificial aprendia a navegar na Internet, a inventar testemunhos e a preencher formulários, o antiquado guarda-redes limitou-se a fazer o seu trabalho. Defendeu o remate e ficou com a bola durante mais de dois meses, sem que ninguém desse por isso.

Mas não podemos confiar a defesa da realidade aos filtros de spam. Há um ano que venho a defender aquilo a que chamo Ontological Firewall, uma porta lógica entre aquilo que a inteligência artificial pode imaginar e aquilo que está autorizada a fazer. Não se trata de limitar a inteligência, mas de verificar a legitimidade dos seus atos antes de produzirem consequências no mundo real. Desta vez, o velho guarda-redes defendeu. O que precisamos é de impedir que os remates indevidos cheguem à baliza. É lógico, não é?

Luis Miguel Novais

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