Advogado, economista e político, fundador do Sinédrio que esteve na génese da Revolução Liberal de 1820, exilado quando o absolutismo regressou, Ferreira Borges pertence àquela rara espécie de portugueses que não se limitou a pensar o país: ajudou a construí-lo.
Deixou-nos, entre outras coisas, o primeiro Código Comercial português, de 1833, cujo manuscrito pertence ao acervo da Associação. Há nisto uma bela continuidade. O comércio precisa de liberdade, mas a liberdade precisa de Direito. E o Porto soube, desde cedo, que nenhuma das duas vive apenas de proclamações: vivem de instituições, de regras, de confiança e de homens dispostos a arriscar por elas. O Sinédrio começou secreto. O Código acabou escrito. Entre uma coisa e outra nasceu boa parte do Portugal contemporâneo.
Estes 240 anos são também um pouco nossos. Não apenas porque Ferreira Borges nasceu português ou porque o Porto preserva a sua memória, mas porque continuamos a viver dentro de muitas das ideias pelas quais aquela geração combateu: liberdade económica, liberdade política, primado da lei e abertura ao mundo. Uma instituição que guarda os seus papéis e os mostra não está simplesmente a celebrar o passado. Está a lembrar-nos de onde vimos. E, nos tempos que correm, talvez não seja pouco. Ontem passaram 206 anos sobre aquele 24 de agosto de 1820 em que o Porto proclamou a nossa liberdade.
Luis Miguel Novais
