O diretor nacional da Polícia Judiciária Luís Neves não acreditaria na história que o ministro Luís Neves está a contar. Mandaria juntar as faturas, seguir os pagamentos, identificar quem autorizou a saída do atrelado e perguntar por que razão um bem apreendido foi passear até à empresa do amigo. Depois ouviria o ministro explicar que a piscina era um tanque, a omissão um lapso, o empreiteiro uma amizade e o silêncio uma forma superior de esclarecimento.
O ministro, porém, conhece bem o diretor. Sabe-lhe os métodos, os horários e talvez até os limites. Por isso não responde às perguntas que ele próprio faria. Espera que o tempo transforme o atrelado em reboque, o reboque em sucata, a sucata em equívoco e o equívoco numa injustiça cometida contra um servidor do Estado. Tresanda a maçonaria, dirão alguns. Talvez. Mas pode ser apenas o velho cheiro das portas fechadas, das mãos apertadas e das instituições que confundem solidariedade com silêncio.
A maçonaria tem demasiada história para ser convocada por cada silêncio do poder. Mas, quando um Governo fecha a porta, apaga a luz e responde por sinais, não pode admirar-se de que cá fora se imagine uma loja. Mais do que saber quem pertence a quê, interessa saber por que razão o Governo se comporta como uma sociedade secreta.
Luis Miguel Novais
