Uma das más importações europeias dos Estados Unidos da América foi a admissão do lobby como atividade legal, desde que regulamentada. É o equivalente institucional (ainda pior, porque afecta todos) daqueles ridículos avisos nos maços de tabaco: fumar mata. Aqui declara-se que o dinheiro influencia o legislador e, feita a advertência, considera-se o vício higienizado.
Tomemos o exemplo hoje revelado. Documentos internos da Copa-Cogeca, que se apresenta como a voz de 22 milhões de agricultores europeus e goza de acesso privilegiado aos legisladores da União Europeia, mostram como esta organização conseguiu atrasar, esvaziar e, por fim, derrubar algumas das mais ambiciosas reformas agrícolas europeias. Entre elas, o plano lançado em 2020 para reduzir para metade a utilização de pesticidas. Em fevereiro de 2021, a organização já tinha definida a estratégia para o combater.
O que está implícito no lobby legal é a corrupção legal dos deputados, eleitos para representar exclusivamente o povo, não os interesses de quem lhes bate à porta. O deputado passa a representar simultaneamente o eleitor e o cliente do lobby. O que, em linguagem menos regulamentar, vem a ser uma ménage à trois.
Luis Miguel Novais
