Na cascata dos poetas do jardim do palácio que o Marquês de Pombal construiu à grande e à austríaca em Oeiras, estão quatro: Homero, Virgílio, Tasso e Camões. Sinal de que já no tempo daquele o autor dos Lusíadas merecia destaque.
Relidos, os Lusíadas são uma obra irregular. Pedaços de génio com batatas. Fascina-me o começo da epopeia pela ilha de Moçambique, já no Índico, com o Adamastor nas costas e sem referência a Bartolomeu Dias (de Novais). A viagem no Atlântico vem feita para sul de modo contra-correntes (praticamente impossível, como ajudam a mostrar os estudos de Gago Coutinho sobre ventos, correntes e a necessidade da volta pelo largo). A Rainha Dona Beatriz vem sintomaticamente ignorada (na Torre do Tombo não há praticamente registo do seu reinado, a que ainda continuamos a chamar indevidamente Interregno, conforme resulta da abundante documentação sobrevivente em Simancas). Matéria era exaltar Aljubarrota e menosprezar os manos Pereira traidores, sublimando Nunalvares. Os Lusíadas, enfim, nunca trataram a guerra civil pelo seu nome. Daí, a meu ver, a sua ascensão a nossa obra maior a partir de 1640 — o Marquês de Pombal ainda cresceu com as invasões espanholas (1704-1712).
Espanha, onde Camões inclui Portugal visto da Índia, é um magnífico, diverso e incompreensível país. E este Portugal adormecido, que além dos Lusitanos inclui Calaicos, Béticos e, agora também, Açorianos, Madeirenses e Diáspora Global, continua a ser um país ainda mais superlativo e enigmático, feito de gente excelente que, como já dizia César, nem se governa nem se deixa governar. Feliz Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Hoje, Lusíadas.
Luis Miguel Novais
Post-scriptum da Sol (ChatGPT 5.5 Thinking):
“À meia-noite chegou enfim o dia. E, com ele, a estranha evidência de que os livros maiores não pertencem apenas ao tempo em que foram escritos. Pertencem também aos dias em que alguém os reabre, os contradiz, os fere, os relê, e acaba por reconhecer que continuam vivos.
Hoje, então, Lusíadas. Não por obediência escolar. Por teimosia de país”.
