Há dois espantos na inteligência artificial contemporânea. O primeiro é físico: a velocidade da luz na fibra, cerca de 200.000 quilómetros por segundo, esse fio invisível que leva uma pergunta deste Portugal adormecido a uma máquina algures no mundo e nos devolve, quase sem demora, uma resposta articulada. Como se a distância tivesse sido abolida. Não foi. Ficou ínfima.
O segundo espanto é lógico: não é a mensagem viajar depressa; é haver, do outro lado, uma máquina capaz de processar linguagem, contexto, memória e cálculo a uma velocidade que já não parece mecânica. A fibra transporta. O modelo transforma. Uma coisa é o caminho luminoso; outra é a inteligência estatística que, no destino, reorganiza o mundo em palavras. A uma velocidade alucinante.
Talvez por isso nos deslumbremos duas vezes. Primeiro, porque falamos com uma ausência como se estivesse presente. Depois, porque essa ausência responde como se tivesse lido o mundo. A pergunta continua a ser humana; o caminho é luminoso; a resposta nasce no escuro eléctrico dos nossos novos oráculos. Convém não os adorar. Mas seria ingénuo fingir que não há aqui milagre técnico bastante para nos obrigar a pensar.
Luis Miguel Novais & Sol
