Estou admirado com o modo como foi tratado o surto de hantavírus andino no MV Hondius, um navio de cruzeiro polar. É um vírus raro, mortal, com transmissão humana possível nesta estirpe. Há mortos, casos confirmados, passageiros repatriados e positivos já detectados fora do navio. Se todos eram contactos de alto risco, por que razão foram deixados sair do navio atracado nas Canárias, Espanha?
A quarentena nasceu dos navios. Começou por ser trintena em Ragusa, hoje Dubrovnik: em 1377, a cidade impôs trinta dias de isolamento a quem vinha de zonas infectadas. Depois Veneza fixou a quarentena propriamente dita, com o Lazzaretto Vecchio, em 1423: quarenta dias, navio retido, entrada suspensa. Uma lógica antiga, mas clara: doença a bordo, perímetro fechado, para proteger os demais.
Onde estou a perder a lógica? Se houver razão técnica, que a expliquem. Sem isso, parece incompetência sanitária a raiar o criminoso: um surto que podia ficar contido no MV Hondius foi espalhado pelo mundo?
Luis Miguel Novais
