Enquanto faço uma playlist privada das minhas memórias musicais de infância, nos anos 70 (por puro gozo de redescobrir), aparece-me isto no Financial Times: “Has taste in music been hijacked?” (FT Weekend, Arts, 3 May 2026). Diz que o gosto musical (ainda) não desapareceu, mas foi capturado. Plataformas, playlists “editoriais” e redes sociais decidem o que aparece primeiro, se sequer aparece. Chamam-lhe descoberta, mas é pago; é distribuição, manipulação, you name it: há hoje uma competente indústria de organizar algoritmicamente o que nos chega aos ouvidos. Quando chega.
Nos anos 70, a música chegava por outras vias, mais escassas: rádio, televisão, discos trazidos por alguém, Top of the Pops e excelentes emissões noturnas em inglês de truly pirate radio stations. Havia erro, atraso, interferência. Havia surpresa. O que se ouvia não vinha ordenado; vinha curado às claras. Sabíamos de onde vinha. Ainda não tinha chegado o pós-modernismo, nem agora este pós-curadorismo obscurantista.
A minha playlist é um arquivo desse acaso. Não corrige, não optimiza, não recomenda. Lembra. E ao lembrar, mostra a diferença: entre o que se escolhia e o que hoje nos é escolhido. “Ouçam… o vento mudou… e ela não voltou.”
Luis Miguel Novais
