Nas chamadas ciências sociais, a incerteza é parte da paisagem. Basta pensar no discurso de ontem do atual Presidente da Assembleia da República deste Portugal adormecido, na cerimónia comemorativa do 25 de Abril de 1974: manifestação da impotência do Parlamento para cumprir a sua função, que é legislar para bem administrar. Certas vezes, a incerteza neste domínio é manifestação de incompetência (parece-me ser o caso); noutras, é natural.
Na mesma frase, engenharia e incerteza parecem contradição nos termos. A mim pareciam-me, até ontem, ao ouvir o podcast de Ezra Klein com o seu convidado Stewart Brand. Este foi apresentado como o principal cérebro por detrás daquilo que é hoje Silicon Valley e, por conseguinte, deste nosso mundo da internet e da inteligência artificial. Realmente brilhante: um homem de 87 anos, com grande lucidez, espírito livre (que se apresenta como hippie) e a quem são creditadas diversas perspetivas extraordinárias. Destaco a história que ali conta de, numa noite de ácido, no telhado, a olhar o céu, ter iniciado o movimento que obrigou a NASA a inverter as câmaras, de maneira a termos fotografias da Terra.
Estudei a lógica difusa (fuzzy logics) subjacente à atual inteligência artificial ainda nos anos 90. Mas confesso que ainda não tinha ouvido ninguém qualificar o que atualmente se passa como engenharia incerta. Eis a novidade que ultrapassa a antiga contradição nos termos. Toda uma nova perspetiva.
Luis Miguel Novais
