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quarta-feira, 1 de abril de 2026

Da Theory of Mind ao Ontological Firewall

Ando a ler A World Appears de Michael Pollan, uma deriva informada pelo território ainda mal cartografado da consciência. Não resolve — nem pretende resolver — o problema; mas desloca o foco para o essencial: não basta descrever o cérebro, é preciso explicar porque é que “aparece um mundo” em cada um. Pelo caminho, fragiliza a metáfora cómoda da mente como máquina e deixa no ar a suspeita decisiva: simular não é experienciar.

A partir daqui, a comparação torna-se nítida. A já consolidada na psicologia cognitiva Theory of Mind não trata da consciência; trata da capacidade de modelar estados mentais alheios — crenças, intenções, erros. Enuncia quando uma competência funcional, poderosa, é suficiente para produzir comportamento socialmente convincente. Um sistema de inteligência artificial atual incorpora essa teoria, logo pode inferir o que o outro pensa sem “pensar” no sentido humano. Já o debate de Pollan insiste na fratura entre processamento e experiência. E a terceira posição — a do ontological firewall, ou supervisor semântico — desloca o problema para outro plano: não o que a máquina é, nem o que aparenta, mas o que lhe é permitido fazer. Entre inferência possível e inferência admissível, instalar-se uma jurisdição, um catalisador.

Conclusão: não é necessário decidir se a máquina tem alma para governar o que faz. Basta reconhecer que pode parecer que sabe, porque modela mentes (theory of mind), sem saber coisa nenhuma. Hoje, primeiro de abril, a piada é esta: a adivinhação funciona — humana ou artificial — porque projeta estados mentais no outro. É uma pequena peta sofisticada. Daí a necessidade de um limite acima disso. Não perguntar se “aparece um mundo”, mas garantir que, no mundo que aparece, certas inferências não passam. É assim já contraditório o nosso mundo social em que assinalamos o dia das mentiras em plena Semana Santa.

Luis Miguel Novais

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