De há meses escrevo neste Portugal Adormecido sobre a necessidade para a inteligência artificial de um ontological firewall: uma instância superior, lógico-dedutiva, colocada acima da mera potência computacional, capaz de distinguir entre o possível, o legítimo e o devido, em prol da humanidade. Soava abstrato. Já não soa.
Leio agora que Sam Altman, chefe do ChatGPT, após tentativa de ataque à sua casa, aproveitou a noite para refletir, pedir desculpa a quem magoou e reconhecer algo em falta. Não interessa aqui o episódio policial em si; interessa o sinal dos tempos. Quando os sacerdotes da disrupção começam a falar como guardiões de limites, é porque a realidade entrou na sala.
Primeiro construiu-se a máquina. Depois escalou-se o mercado. Agora descobre-se que faltava a pergunta essencial: para quê, para quem e sob que lei. A Inteligência Artificial precisa de um ontological firewall. Tenho pena que as Nações Unidas não respondam à minha proposta pro bono. O assunto não se resolve empresa a empresa, nação a nação.
Luis Miguel Novais
