Fui baptizado na Igreja de São Vicente, em Braga, onde repousa uma lápide visigótica de 618 d.C. com a inscrição “die secunda feria”. Dia de segunda-feira.
E nascera para o mundo não cristão na Rua do Raio — um topónimo romano da mesma cidade. Como se a minha identidade começasse justamente no ponto onde o mundo clássico encontra o mundo cristão. Numa espécie de Renascimento constante. Naquele templo cristão bracarense (cidade fundada pelos romanos no tempo de Cristo) está o mais antigo testemunho da semana numerada, liberta dos planetas que dominaram o calendário romano: Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vénus, Saturno.
Persistem, contudo, mitos obstinados: que “feira” significaria descanso (quando ainda hoje temos “feira”-mercado, além de férias e feriado); que Martinho de Dume inventou a semana numerada; ou que várias línguas fariam o mesmo. Tudo errado. Já nos séculos II–III aparecem “feria quarta” e “feria sexta” (Tertuliano). São Martinho de Dume, no De correctione rusticorum, limitou-se a expulsar os "demónios ou deuses" que “nenhum dia criaram” — não a introduzir os numerais; e a pedra bracarense mostra que, em 618 d.C., a reforma estava concluída.
Depois, cada cultura seguiu o seu rumo. O inglês e o alemão conservaram o dia do Sol (Sunday, Sonntag). O espanhol, o francês e o italiano mantiveram os planetas (lunes, mardi, martedì). O galego contemporâneo também regressou a eles (luns, martes, mércores). Só o português levou a alteração até às últimas consequências, convertendo a série das feriae em nomes correntes: segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira.
Somos a única língua viva do planeta que conta o tempo da semana assim — uma arquitectura tardo-antiga preservada na fala quotidiana de vários povos contemporâneos. A semana portuguesa não é uma curiosidade folclórica: é uma decisão cultural profunda, mantida intacta enquanto o resto do mundo românico regressava aos astros.
E é essa semana — a semana à portuguesa — que hoje ecoa em cinco continentes: Lisboa, Porto, Rio, Recife, São Paulo, Luanda, Maputo, Bissau, Praia, Díli, Goa, Macau, Newark. Alguns (poucos), chamam-nos colonizadores; eu prefiro dizer coloquiais. Quem não quisesse esta herança bastava ter voltado aos planetas. Mas não voltou. Ficou.
E no centro deste mapa simbólico permanece a nossa Igreja de São Vicente em Braga — para mim, a verdadeira igreja portuguesa do mundo — lembrando que o modo como contamos os dias é, ainda hoje, uma das formas mais silenciosas e profundas de sermos quem somos.
Luis Miguel Novais
