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Riqueza, civilização e prosperidade nacional

sábado, 7 de novembro de 2020

Terras da Demo

Aquilino Ribeiro escolheu "do" para descrever a sua Beira de Portugal natal, identificando-a com o demónio, nas suas Terras do Demo. Eu escolho "da" para comentar as eleições nos Estados Unidos da América - que não sendo a terra natal da grande maioria de nós, importa por ser quem é no globo.

Assistimos, hoje em dia, a uma situação generalizada em que a comunicação se tornou o comunicado. O mensageiro tornou-se a mensagem. As televisões, rádios, jornais, redes sociais (cada vez menos plataformas neutras), falam do imaginário, mais do que da realidade. Por vezes, parece que se tomam pela própria realidade - como sucede a quem vê Juno nas nuvens. E, claro, a propaganda (que é de todos os tempos) acompanha saciada.

Quem padece é a democracia - que, como todos sabemos, é a única alternativa justa ao consenso, normalmente impossível de alcançar. Claro que a democracia implica a submissão de todos quantos nela participam a uma regra simples: a da maioria dos votos.

Aquilo que não é tão claro nem simples é o número dos votos que contam para formar essa maioria. Como é sabido, por exemplo, estavam generalizada e injustamente excluídas dos sufrágios as mulheres, até há não muito tempo. A idade legal para votar varia. Ainda hoje, as regras sobre estes e outros pontos variam de Estado para Estado, um pouco por todo o lado - e não só nos Estados Unidos da América.

O Estado do Nevada era (e é ainda, em grande medida) um deserto. No qual ninguém estava interessado em viver até que se tornou uma mina de prata e ouro, primeiro, e o paraíso do jogo de Las Vegas, depois. Nevada tem pouco menos de três milhões de habitantes. Segundo as suas leis eleitorais, as urnas só fecham para o voto postal sete dias depois da data do voto presencial. Ou seja, no dia de hoje, ainda nem sequer fecharam as urnas no Nevada, parte dos Estados Unidos da América.

É só um exemplo de como as Terras da Demo se transformam em Terras do Demo se não pusermos ordem na comunicação social no campo eleitoral: sondagens são sondagens, projecções são projecções, votos são votos. E só estes contam, como caberia comunicar com imparcialidade, em respeito pela democracia que nos une.

Luis Miguel Novais

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